Antes e depois das telas: o que mudou na experiência de ser criança

Para quem cresceu antes da popularização dos smartphones e das redes sociais, boa parte das experiências das crianças acontecia longe das telas: brincar na rua, combinar encontros pessoalmente, inventar atividades com os amigos e passar o tempo sem uma programação constante de entretenimento. Para as gerações mais novas, a internet faz parte da rotina desde cedo e modificou as maneiras de se relacionarem.

Essa transformação geracional aparece no livro Minhas Memórias Afetivas, de Luís Augusto de Rezende Pena. Ao narrar seu crescimento em Ouro Branco (MG), nos anos 1980, o autor registra um cotidiano marcado por amizades construídas presencialmente, relações familiares e experiências anteriores às telas. A proposta, porém, vai além da nostalgia: as diferenças entre aquela infância e a atual ajudam a observar como hábitos aparentemente comuns revelam mudanças profundas na vida social.

A dimensão dessa transformação pode ser observada nos dados mais recentes da pesquisa do Instituto Alana. O estudo mostra que a relação dos adolescentes com a internet não é simplesmente positiva ou negativa: 71% apontaram diversão como um sentimento associado ao ambiente digital, mas 50% disseram passar mais tempo online do que gostariam e 41% afirmaram se sentir mais dependentes do celular.

Nesse cenário, olhar para as diferenças entre gerações pode ajudar a entender não apenas o que mudou na infância, mas também quais experiências foram substituídas.

1. Do brincar na rua ao entretenimento sob demanda

Para aqueles que cresceram antes da internet, o tempo livre precisava ser preenchido com criatividade: uma bicicleta, bola, alguns amigos ou simplesmente o espaço da rua. Não havia um catálogo infinito de filmes, vídeos, jogos e conteúdos esperando para serem acessados a qualquer momento.

Hoje, a juventude pode escolher instantaneamente entre inúmeras formas de entretenimento. A TIC Kids Online Brasil 2025 mostra a dimensão desse consumo: entre usuários de 9 a 17 anos, vídeos de influenciadores e séries, filmes ou programas online eram acessados por 80% dos entrevistados, enquanto 74% assistiam a tutoriais e 52% acompanhavam vídeos de pessoas jogando videogame.

2. Da presença para os laços digitais

Durante boa parte do século passado, a amizade dependia da proximidade física. Era preciso encontrar o colega na escola, bater na porta de casa ou combinar onde e quando se encontrariam. 

A comunicação digital alterou completamente essa dinâmica. Atualmente, a presença de um amigo pode continuar mesmo quando cada um está em sua própria casa, por meio de mensagens, chamadas, grupos e redes sociais. A própria frequência de uso dessas plataformas entre adolescentes mostra como a comunicação digital passou a ocupar uma parte significativa da rotina.

3. De inventar a própria brincadeira a escolher um catálogo

Uma diferença importante está também na origem do entretenimento. Antes das plataformas digitais, muitas brincadeiras precisavam ser inventadas pelas próprias crianças. 

Nos dias atuais, boa parte das opções já chega pronta: jogos possuem regras, fases e objetivos definidos; vídeos são recomendados por algoritmos; plataformas oferecem conteúdos personalizados de acordo com aquilo que o usuário já demonstrou interesse em assistir.

4. De esperar pelo próximo encontro a estar sempre conectado

A espera era parte natural das relações de quem cresceu sem celulares. Depois de um passeio, era possível passar dias sem saber exatamente o que o amigo estava fazendo, e as novidades eram compartilhadas na próxima conversa. Hoje, acompanhar a rotina de outras pessoas se tornou mais comum. rotineiro.

5. De memórias compartilhadas no bairro a experiências registradas nas redes

As lembranças de infância também são atravessadas pela tecnologia. Para quem cresceu nos anos 1980, muitas vivências ficaram associadas a lugares, pessoas e acontecimentos que eram vividos coletivamente: a rua, escola, casa de um amigo ou uma festa.

As novas gerações contam com outra possibilidade: registrar praticamente tudo. Fotos, vídeos, mensagens e publicações podem acompanhar experiências desde o momento em que acontecem. A memória passa a contar também com um arquivo digital.

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