Juventudes em risco: a morte do sonho
Caio Garrido*
O Relatório do Observatório Brasileiro das Desigualdades de 2026 alerta para o aumento da desigualdade social no Brasil. Além das consequências socioeconômicas, como interpretar essa realidade no Inconsciente da população? E nas juventudes? O que os sonhos revelariam? Haveria um ambiente propício para a falta de esperança se solidificar nesses jovens?
Os jovens são uns dos mais afetados por acontecimentos traumáticos de origem sociopolítica. Os sonhos noturnos, da perspectiva da Psicanálise, sinalizam questões da singularidade de um indivíduo e do campo coletivo e social.
Em nosso país, a ascensão da extrema-direita ao poder em 2019 gerou um aumento significativo de sonhos de angústia e de cunho traumático. Foi possível enxergar ali o retrocesso nas conquistas democráticas para os jovens, com o perecimento da capacidade de sonhar.
Historicamente, o Brasil não foi um país que tratou bem seus jovens, como durante o Regime Militar. Segundo Frei Betto, “a juventude foi a vítima mais direta da ditadura militar. Período que aniquilou os recursos e as possibilidades que havia de os jovens coincidirem a sua entrada na adolescência com a entrada na vida social”.
Documentos recentes, como o citado, e alguns “Atlas da Violência”, alertam também para a vulnerabilidade de jovens a situações de violência física e simbólica. No caso dos sonhos, iremos encontrar dados que sugerem falta de esperança.
Segundo o neurocientista Sidarta Ribeiro, uma pesquisa sobre os efeitos da idade, gênero, desesperança relacionados à exposição à violência entre adolescentes em bairros pobres, “com mais de 11 mil adolescentes mostrou que a exposição à violência produz impactos negativos sobre o sono de adolescentes”, e que “os sintomas de apneia, insônia, pesadelos, síndrome das pernas inquietas, e sonolência diurna, aumentam em função da desesperança”.
Uma das funções do sonho é a da elaboração de acontecimentos traumáticos. Jovens mostraram através de relatos de sonhos noturnos em pesquisa que empreendi, que a confiança em si mesmos estava profundamente abalada, devido à forma como o mundo social se infiltrava na vida familiar e determinava os rumos de suas vidas a partir das aspirações paternas e maternas, ou pela falta delas.
No ano de 2020 e 2021, foram realizadas pesquisas por psicanalistas para compreender o que brasileiros estariam sonhando, mostrando que as juventudes “produziram narrativas oníricas que remetem a um clima e a uma impressão de escuridão, um ambiente estranho que retoma o medo de violência e a agressividade que assombra o país por conta do retrocesso político e da crise econômica”.
Havia referências a sensações de passividade e silenciamento, como no caso da “jovem que sonha com a concha acústica e em um ambiente no qual estranhamente não é escutada”, fazendo referência “a algo de silenciador na tessitura social para a construção de um projeto de sociedade mais igualitário e com justiça para todos”.
O sonho poderia ser um lugar privilegiado de dizer o indizível. O não escutável. Sendo uma ferramenta de transformação social ainda não censurada pelos trâmites do poder, desde que reconhecido como tal.
Devemos, portanto, nos perguntar: para onde os nossos sonhos nos levam? Para incluir estes jovens, de fato? Ou para continuamente mantê-los à distância?
*Caio Garrido é psicanalista, escritor, mestre em Ciências da Saúde e pesquisador sobre as relações entre psicanálise, psicologia social e sonhar noturno. Além de ter 15 anos de experiência em consultório, também é autor de oito livros, incluindo "O Sonho como Despertar Social: Por uma política existencial de desalienação através do sonhar noturno"
Com informações de LC - Agência de Comunicação

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