Opinião: O desespero dos jovens e possíveis caminhos da esperança

 Artigo escrito por Igor Almeida Bastos*

Créditos: Banco de imagens / Pexels

Talvez ninguém tenha retratado tão bem o desespero da juventude como Belchior. Já em seu primeiro álbum, na canção “A palo seco”, ele cita nominalmente o desespero de um jovem de 25 anos de sonho, de sangue e de América do Sul. Em “Na hora do almoço”, ele entrega um retrato privilegiado da opressão que a convivência familiar pode representar.

Já no segundo e terceiro álbum, ele dobra a aposta. “Apenas um rapaz latino-americano”, “Como nossos pais”, “Alucinação” e “Paralelas” talvez dispensem a apresentação. “A vida realmente é diferente. Quer dizer, ao vivo é muito pior”. “Minha dor é perceber que apesar de termos feito tudo que fizemos, nós ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais”. “E a solidão das pessoas dessas capitais. Violência da noite”. “Quanto mais eu multiplico diminui o meu amor”. Bastante sofrimento na juventude (mas também esperança, a qual logo retomarei).

Se no final dos anos 70, a juventude sofria no Brasil (e por motivos outros), as perspectivas não parecem muito melhores. Dos anos 80 pra cá, a taxa de suicídio no Brasil nunca esteve tão alta, de acordo com pesquisa publicada pelo Our World In Data em 2026.

Além disso, o suicídio é a terceira principal causa de morte entre jovens de 15 a 29 anos no mundo, segundo dados da Organização Mundial da Saúde de 2025. No Brasil, em uma década, de 2010 a 2019, a taxa de suicídio aumentou 43%. Esse número é ainda mais marcante entre jovens e adolescentes, porque o aumento foi de 81%, conforme levantamento da Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente, do Ministério da Saúde.

Parece existir uma crise na saúde mental dos jovens. O que está acontecendo com eles?

Muitas hipóteses são possíveis. Por exemplo, a depressão acomete mais mulheres que homens (para cada 3 casos de depressão, cerca de 2 são em mulheres), segundo a OMS, mas a taxa de suicídio no Brasil é bem maior em homens do que em mulheres (para cada 10 pessoas que tiram a própria a vida, quase 8 são homens), de acordo com a SVSA.

Alguém poderia argumentar algum fator cultural, como o machismo e a maneira que os homens são ensinados a lidar com as próprias emoções (e que isso afetou os jovens de uma maneira diferente mais recentemente). Alguém poderia comentar que fatores econômicos, como a dificuldade de um jovem ter um carro e uma casa, poderiam ser um fator (avanço da inflação e de políticas neoliberais). Alguém poderia argumentar que o advento das redes sociais de algum modo aumentou o sofrimento dos jovens (talvez através do aumento da insatisfação com a imagem corporal, por exemplo).

Em algum nível, todas essas hipóteses parecem promissoras. Possivelmente, de caso a caso, uma razão tenha mais influência que outras.

Mas como manter então os caminhos da esperança? Mudanças estruturais possivelmente vão transformar a vida de muita gente (alguém poderia falar de políticas públicas como psicoeducação nas escolas, diminuição das taxas de juros, mais acesso e permanência à educação, etc.).

Numa dimensão mais subjetiva e individual (mas não só), Belchior talvez nos dê pistas. “Viver é melhor do que sonhar e eu sei que o amor é uma coisa boa”. “Amar e mudar as coisas me interessa muito mais”. “Sonho e escrevo em letras grandes de novo”.

Por um lado, dar um jeito de viver uma vida significativa, com amor e mudança do que pode ser mudado. Sonhar, ter esperança, mas não deixar de viver. E o que vai ser esse significado? O que vai ser essa mudança? Essa é a pergunta de uma vida, e talvez não exista receita de bolo.

* Igor Almeida Bastos, que assina como Igor Maneiro, é psicólogo, mestre em Psicologia e autor de “Sobre amendoins, solidão e o outro eu”, ficção que atravessa temas como felicidade, identidade, relacionamentos amorosos e conflitos familiares.

Com informações de LC - Agência de Comunicação

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Carlinhos do Mangão celebra seis meses de gestão com avanços concretos em Novo Gama

Seca histórica no DF acende alerta para riscos à saúde no dia do Cerrado

Empregabilidade jovem: CIEE oferece 665 vagas de estágio no DF