Opinião: O corpo se assemelha a um palimpsesto
Artigo escrito por Arnaldo Pinto Guedes de Paiva Neto*
Créditos: Museu de Belas Artes de Blois
Palimpsesto é o nome dado a um manuscrito antigo em pergaminho reutilizado, material produzido a partir da pele de animais. O texto anterior era raspado para dar lugar a uma nova escrita, mas seus vestígios permaneciam.
O corpo humano pode ser comparado a um palimpsesto, pois também é continuamente “reescrito”: a maioria das células é substituída por novas, a partir da divisão de células anteriores (mitose). Aqui vale diferenciar renovação de regeneração. Quando danificados, a maioria dos tecidos humanos adultos não apresenta capacidade de regeneração completa.
Antes de cada divisão, o DNA é replicado e sua informação é transmitida às células-filhas. As novas células não surgem do nada, porque carregam informação e componentes herdados das células que as precederam. A medicina tradicionalmente classifica as células em lábeis, estáveis e permanentes. Durante muito tempo, estas últimas foram consideradas praticamente incapazes de voltar a se dividir depois de diferenciadas.
O avanço das técnicas de estudo celular trouxe nuances a essa classificação. O coração é um exemplo. Hoje se sabe que existe uma pequena taxa de renovação dos cardiomiócitos, células musculares responsáveis pela contração cardíaca. A rotatividade estimada é de cerca de 1% ao ano aos 25 anos e cai para aproximadamente 0,45% aos 75 anos. Os cardiomiócitos permanecem, portanto, majoritariamente os mesmos desde o nascimento, embora uma parcela menor seja renovada ao longo da vida.
A maioria dos neurônios do córtex cerebral também praticamente não é substituída ao longo da vida. No cristalino, novas fibras são acrescentadas na periferia, enquanto as fibras centrais podem permanecer por toda a vida. No outro extremo, as hemácias circulam por cerca de 120 dias antes de serem substituídas; o epitélio intestinal se renova em poucos dias e a epiderme, em algumas semanas. Outros tecidos apresentam ritmos intermediários.
O organismo, portanto, não possui um único relógio de renovação. Algumas inscrições biológicas são rapidamente substituídas; outras permanecem por muito mais tempo e outras quase não se renovam. Essa diferença de ritmos torna a imagem do palimpsesto especialmente adequada: o novo não surge de uma página em branco nem apaga completamente aquilo que veio antes.
O que já foi considerado absolutamente fixo pode revelar movimentos mínimos antes invisíveis. Ainda assim, em meio às mudanças contínuas do organismo, preserva-se uma impressão de permanência. É essa continuidade que permite que o corpo se transforme sem perder os vestígios de sua história.
O corpo é, assim, um palimpsesto biológico. Células e moléculas se sucedem em velocidades diferentes, enquanto informações, estruturas e marcas anteriores permanecem. A identidade do organismo não depende de conservar cada peça original, mas de preservar uma continuidade capaz de atravessar essas transformações. O copo muda sem, por isso, perder sua identidade.
*Arnaldo Pinto Guedes de Paiva Neto é médico geriatra e autor de “Palimpsesto: O corpo que se reescreve”, resultado de um trabalho que integra evidências científicas e reflexão teórica para compreender como a vida preserva informações apesar das constantes mudanças.
Com informações de LC - Agência de Comunicação

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