Inteligência Artificial na escola: benefícios, riscos e o perigo da panaceia

 *Arthur V. F. Furtado

Crédito: Pexels


Mary Shelley, uma das pioneiras da ficção científica, escreveu, no capítulo 23 de Frankenstein: ou o Prometeu Moderno: “Nada é tão doloroso para a mente humana quanto uma grande e repentina mudança”. A frase, dita no momento em que a criatura se volta contra o criador, ilustra o atual receio de que a inteligência artificial saia de controle, tomando empregos, substituindo relacionamentos e rebaixando o intelecto e a arte.


Na área da educação, na qual 56% dos docentes brasileiros já utilizam essa tecnologia (TALIS, 2024), ela é vista tanto com suspeita quanto com euforia. Por isso, é necessário ponderar eventuais potencialidades e ciladas a fim de evitar o pânico infundado e o usual modismo pedagógico.


Analisando-se os prós, a inteligência artificial pode ajudar a diminuir a brutal sobrecarga de trabalho dos professores, a qual vem impactando na piora dos índices de saúde mental da categoria. Hoje, os docentes já gastam 12% (TALIS) do tempo de aula com questões burocráticas (média da OCDE: 9%), 9,3 horas semanais com preparação de aulas (média da OCDE: 7,4 horas) e 6,1 horas por semana com correção de tarefas ou provas (média da OCDE: 4,6 horas). 


Nesse contexto, a IA pode ser uma importante aliada no equacionamento das demandas documentais e pedagógicas, permitindo, inclusive, avaliações mais frequentes e detalhadas, além de feedbacks específicos para cada aluno. 


Ademais, pode agilizar a preparação de planos de aula, apresentações, bancos de questões, adaptações curriculares e atividades voltadas à recuperação de lacunas de aprendizagem, aprimorando o ensino e favorecendo a inclusão de alunos neurodivergentes. Finalmente, pode facilitar a preparação e aplicação de metodologias ativas, como jogos, trilhas de pesquisa, mapas mentais e debates guiados


Por outro lado, a viabilidade dessas soluções esbarra na precária infraestrutura escolar, que pode ampliar ainda mais o abismo educacional entre ricos e pobres. Nesse sentido, muitas escolas públicas sequer contam com laboratório de informática: 73% (anos iniciais do Ensino Fundamental), 53,2% (anos finais do Ensino Fundamental) e 27% (Ensino Médio). Além disso, apenas 44,5% das escolas públicas estão conectadas à internet com parâmetros adequados para uso pedagógico em sala de aula (Censo Escolar, 2025).


Outro risco é a ampliação da dependência digital dos alunos, minando o aprendizado planejado pelo professor. De acordo com a 15ª edição da TIC Educação (Cetic.br), 70% dos estudantes do Ensino Médio já utilizaram a IA generativa para realizar pesquisas escolares e estruturar trabalhos. Por sua vez, o Observatório Fundação Itaú, em levantamento de 2025, apontou que 80% dos alunos afirmaram que recorrem à IA para ajudar na resolução de atividades e deveres. Nesse cenário, a tecnologia é positiva quando ajuda a aprofundar pesquisas, identificar fontes confiáveis e revisar trabalhos, apontando eventuais erros e sugerindo correções. 


No entanto, pode ser usada como atalho para burlar as atividades escolares, realizando o trabalho pelo estudante e inviabilizando qualquer forma de aprendizado real. Esse risco não pode ser ignorado e demanda orientação e acompanhamento de pais e professores.


Por fim, é preciso que se evite tornar a IA a nova panaceia educacional, papel já ocupado pela pedagogia das competências, pelas metodologias ativas, pelas TICs (Tecnologias de Informação e Comunicação), pela robótica e pelo empreendedorismo. Tudo isso pode encontrar o seu espaço na escola, mas, ao contrário do que é vendido por políticos e burocratas, não representa um remédio mágico contra o fracasso escolar.


Quando se trata de ensino de qualidade, nada substitui o foco no conhecimento poderoso - expressão de Michael Young - e no professor com boa formação e condições adequadas de trabalho. Afinal, como já asseverou Bill Gates, a tecnologia é só uma ferramenta. No que se refere a motivar as crianças e conseguir que trabalhem juntas, o professor continua sendo o recurso mais importante.


*Arthur V. F. Furtado é professor, coordenador pedagógico, doutor em Educação Escolar e autor do livro “Queimem todos os professores”


Com informações de LC - Agência de Comunicação.

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